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| Padre Cláudio Melo (1932-1998) |
Hoje, dia 4 de agosto de 2026, dia do sacerdote, dia de São João Maria Vianney, publicamos abaixo uma breve e elogiosa biografia do Padre Cláudio Melo, distinta personalidade de nosso estado, que é tão esquecido e desprezado por muitos conterrâneos que desconhecem a grandeza do historiador que este sacerdote já foi.
Nasceu
na cidade de Campo Maior, em 2 de março de 1932. Além de sacerdote e
historiador, foi professor da Universidade Federal do Piauí. Doutor em
Sociologia pela universidade romana de São Tomás de Aquino. Foi membro do
Conselho Estadual de Cultura e do Conselho do Projeto Petrônio Portela. Exerceu
a chefia do Patrimônio Artístico e Cultural do Piauí. Pertenceu à Academia
Piauiense de Letras. Publicou os livros: O mártir dos Tacarijus, O povoamento
do Piauí, O último berço dos Tacarijus, Os construtores de nossa história, Os
jesuítas no Piauí, Os primórdios de nossa história, Arquidiocese de Teresina, A
Diocese de Parnaíba – 50 anos de história, A prioridade do norte no povoamento
do Piauí, As sesmarias da Casa da Torre no Piauí, Bernardo de Carvalho, Caxias
no tempo das Aldeias Altas e Fé e civilização. Fora outras obras e artigos
publicados em diversos periódicos (que dariam um belo volume).
Exerceu
seu mister sacerdotal nos municípios de São Miguel do Tapuio, Campo Maior, São
Pedro do Piauí e Teresina. Sobre os dois primeiros, escreveu importantes obras
historiográficas, desde os seus primórdios.
Pe.
Cláudio Melo é um historiador que prezava, sobretudo, a verdade e o contexto da
época em que os fatos aconteceram, para não cometer injustiças e insolências
com a figura histórica, ante eventuais anacronismos. Também não admitia certos
modismos metodológicos e injustas iconoclastias. Assim, se insurgiu com altivez
contra certos anacronismos, quando alguns afoitos “historiadores” detrataram e
defenestraram importantes figuras históricas, sem levarem em conta a realidade,
as leis, os costumes, as crenças, as crendices e as superstições da época em
que essas pessoas viveram.
Em
busca da verdade histórica sacrificou sua saúde, seu tempo e cabedais. Segundo
se sabe, mergulhou em desgastantes consultas a documentos, numa época em que
eles não eram disponibilizados na internet. Por conseguinte, os consultou em
diferentes e longínquos arquivos e acervos, entre os quais os de Portugal,
Belém-PA e São Luís do Maranhão, fora os existentes em diferentes cidades do
Piauí, tanto públicos, como eclesiásticos e particulares.
De
inteligência arguta, sua capacidade argumentativa era invejável. Contudo, suas
conclusões não eram tiradas de meras suposições e hipóteses, mas do cotejo de
vários documentos. Como suas pesquisas, leituras e releituras se prolongaram
por vários anos, desenvolvia e aperfeiçoava suas teses e ilações em obras
posteriores (...)
Tornou-se,
com o avançar de suas pesquisas e obras, um dos mais importantes historiadores
de nosso estado, quiçá o mais ilustre de nossos primórdios e de nossa
historiografia colonial. Lançou luzes sobre muitos fatos desconhecidos ou
obscuros, sobre muitos dos quais pairavam dúvidas e controvérsias, trazendo
novos esclarecimentos e reinterpretações, mas, como disse, fundamentado em
documentos, cuja localização indicava, transcrevendo-os em muitos trechos de
sua vasta obra ou em seus anexos. Por via de consequência, muitos intelectuais
que lhe torceram o nariz, no início de sua brilhante jornada historiográfica,
passaram a lhe acatar as teses e tiveram que se curvar ante os seus
incontrastáveis argumentos.
O
ilustre historiador não se preocupou em fazer um trabalho de mera divulgação
(que também é importante), mas em trazer à luz da história fatos desconhecidos
ou não perfeitamente desvendados de nosso passado mais remoto. Porfiou em
esclarecer dúvidas, em desfazer equívocos e interpretações controvertidas. Portanto,
foi à procura de documentos esconsos, ainda não manejados por nossos
pesquisadores, que jaziam esquecidos em empoeirados e quase inacessíveis
arquivos e acervos.
Fonte: CARVALHO, Elmar. Padre Cláudio Melo em três tempos (Prefácio). In. MELO, Cláudio. Obra Reunida, Teresina-PI: Academia Piauiense de Letras, 2019 (Coleção Centenário 103).
Abaixo, transcrevemos uma belíssima descrição de um acontecimento solene ocorrido em uma vila do Brasil colonial, da pena de Padre Cláudio Melo, se trata da narração histórica dos preparativos que a povoação da freguesia de Santo Antônio do Surubim organizou para a recepção da visita oficial do primeiro Governador da Capitania de São José do Piauhy, Cel. João Pereira Caldas, àquela povoação em 1761, que seria elevada ao status de Vila no ano seguinte:
Em 29 de julho de 1758 se deu execução
ao alvará de 1718, que criara a Capitania do Piauí. Com isto, logo se teve
conhecimento da nomeação e posse do seu primeiro Governador, o Coronel João
Pereira Caldas, filho do então Governador do Maranhão, o Brigadeiro Gonçalo
Pereira Lobato e Sousa.
Quando em 20 de setembro de 1759 Pereira
Caldas tomou posse do Governo da Capitania Piauí, como seu primeiro titular já
trazia consigo recomendações de Portugal para no plano de organização política
da Capitania, erigir Vilas nas freguesias existentes. Tais recomendações se
fizeram porque, como a própria Coroa revelou, o Rei alimentava a esperança de
que, no Piauí se teria “uma das mais nobres Províncias dos meus domínios no
Brasil”.
Ciente das intenções do reino, logo cedo
o Governador se inteirou da situação de cada uma das freguesias existentes e
viu que o estado de atraso da Capitania não era conhecido pela Coroa. Ao
observarmos a troca de correspondências entre o Governo do Piauí e a Corte
Portuguesa, se percebe por um lado a intransigente decisão de Lisboa em fazer
Vilas todas as Freguesias já criadas, e por outro a persistência de Pereira
Caldas de não
criar, de início, mais que duas Vilas, a de Nossa Senhora do Livramento do
Parnaguá e a de Santo Antônio do Surubim. Numa destas correspondências o
Governador confessa que ainda não conhece Santo Antônio do Surubim, mas sabe de
certeza que merece ser criada Vila. Veio da própria Corte a insistência para
que o Governador visitasse aquela povoação. Passado um ano e meio de inúmeras
atividades que vão desde a escolha dos seus principais servidores à
estruturação da máquina administrativa e aos preparativos para a instalação da
Cidade Capital, Pereira Caldas se dignou visitar as povoações. Primeiro se
dirigiu a Parnaguá. Junho de 1761 seria a vez da Freguesia do Surubim.
Em março começaram os preparativos.
Diversas foram as cartas que o Governador dirigiu tanto ao juiz de então do
Surubim, o Capitão Agostinho Ribeiro Nunes de Brito, como ao comandante militar
da povoação, e do Rancho dos Patos (Castelo do Piauí), o Capitão de Cavalos
Manuel Alvares de Araújo. A ambos foi confiada a responsabilidade dos
preparativos daquela primeira visita oficial. Data de 27 de Abril de 1761 o
bando que foi distribuído pelas fazendas, comunicando a todos os moradores da
freguesia e vizinhanças o fausto e a data de sua ocorrência, seria exatamente
nos últimos dias do festejo do glorioso Santo Antônio. Foi comunicado também
que na comitiva do Governador viria sua família. A esse respeito, assim se
expressou o Chefe do governo: “Parecendo-me útil que ao pé da casa em que me
aquartelar se façam alguns ranchos para a assistência de minha família e
soldados de minha guarda”.
Foram expedidos ainda ofícios aos
comandantes das guarnições visinhas de Rancho dos Patos (Castelo do Piauí),
Piracuruca e Barra do Parnaíba para que em dias diferentes, mas de antemão
estabelecidos, estivessem em Santo Antônio do Surubim, não só para as
formalidades de revista das tropas, mas para um melhor contato pessoal. Todos
perceberam que tal visita seria sumamente importante para a comunidade,
previram os benefícios políticos e sociais. A independência municipal era para
todos uma aspiração que de há muito deveria se ter concretizado.
O entusiasmo tomou conta de todos. Todos
se sentiram responsáveis pelo êxito daquela visita. Juiz e Comandante assumiram
as obras públicas. Limparam-se as praças e ruas,foram batidos os caminhos para
Oeiras, adestraram-se as tropas. Os moradores da povoação e os fazendeiros
também tiveram o seu papel, assumindo não só o melhor aparato das suas casas na
povoação e nas fazendas onde descansariam e repousariam os da comitiva
governamental. Os trabalhos de pedreiros, alfaiates, ferreiros,
seleiros, ourives, foram requisitados, movimentando toda a povoação e seu
termo. Os fazendeiros se prepararam para exibirem suas montarias de fama, tanto
pelo trato dos cavalos como pelos arreios de luxo. Ricas selas, com alcochoado
de veludo foram compradas a alto preço na Bahia. Espadas espadins com cabos
trabalhados em prata fina, botões de ouro, fivelas de sapatos, e de chapéus de
ouro e prata, brida e esporas, chicotes e bengalas de cabo de ouro ou prata,
calções de cores vivas, camisas rendadas e mantos
caros, ao refinado estilo europeu. Era a ostentação masculina. Pelos
inventários da época se percebe que alguns destes luxos tinham procedência da
Bretanha e da França. Uma bengala era de Cana da índia. As senhoras exibiram também ricos
vestidos e jóias de preços altíssimos, leque de papel da China.
Aquela ostentação não parou nas pessoas.
A prataria das casas mais abastadas também merece consideração. Copos, garfos,
facas, colheres, bandejas, paliteiros, chocolateiras foram trabalhadas por
exímios ourives da povoação e do seu termo ou comprados em centros já
desenvolvidos. Usavam também lavatórios de estanho, escarradeiras, tapetes,
louças finas, foram comprados.
Não se guardaram documentos que
registrassem a visita ou mesmo a data de tão importante fato. Das cartas do
Governador às autoridades do Surubim, além das instruções repetidas, se sabe
que Pereira Caldas saiu de Mocha (Oeiras) em 1° de junho e que as mostras das
tropas seriam a 13 daquele mas para os que estavam sob o comando do Tenente
Manuel Amando de Araújo, e a 14 para as tropas do Rancho dos Patos (Castelo do
Piauí).
Todavia o ritual previa que um
Governador fosse recebido com solenidade, em procissão, debaixo de um pálio e
conduzido pelos principais senhores do lugar e que entre outros trajetos, se
colocasse uma visita à Matriz. Porque era a norma, isto aconteceu, e com grande
ocorrência de pessoas. Depois da recepção feita ao Bispo do Maranhão, Dom Frei
Manuel da Cruz, em fins de novembro de 1742 (e foi ele o primeiro Bispo a
visitar aquela freguesia) foi realmente aquele encontro a maior solenidade
vivida por aquela povoação.
Não creio que as impressões que o
Governador teve daquele primeiro contato com aquela gente, não tenham sido
transcritas a el Rei, que particularmente se interessava por aquela visita. Nos
arquivos de Lisboa deve haver muito material precioso para os
pesquisadores.
O Governador não apenas viu a povoação
ordenada na sua estrutura urbana e social “à semelhança das povoações da
Corte”, observou o comportamento fidalgo daquela gente que o acolheu com
nobreza e carinho. Pereira Caldas presenciou também que entre aqueles ricos
criadores não havia o orgulho do sangue, o complexo de cor, a arrogância do
rico. Ele viu a nobreza do sangue ladeada do mameluco, do pardo, do africano.
do vermelho. Ele viu nas tropas militares o branco e o negro juntos e, com o
escravo, campear o senhor na mais fraternal comunhão de interesses. Isto o impressionou
a tal ponto que chegou a desabafar, como que escandalizado. Era comum, nobres
como os Castelo Branco e os grandes ricos da época, serem padrinhos, compadres
e testemunhas de Batizados e Casamentos de escravos seus e de amigos. Foi tudo
isto que deu unidade e progresso à povoação do Surubim. Aliás foi por causa
desta maravilhosa fraternidade que alguns desgostos sérios se criaram entre os
principais da povoação e o próprio Governador.
Ainda durante esta estadia, Pereira
Caldas tomou conhecimento da existência de plantios de algodão e fumo, como se
informou da produção dos vários engenhos de cana e dos primeiros alambiques
para o fabrico da aguardente. Nisto, ao que se sabe até o momento, o Surubim
foi pioneiro no Piauí. Com os Comandantes das tropas tanto de Piracuruca como
do Rancho dos Patos, o Governador obteve informações sobre as duas freguesias
ao norte e a leste. Pronto informou a Portugal o que tinha visto e ouvido. A
resposta foi a ordem da criação das Vilas.
Nove meses depois, aquela população
tornava a receber comunicados de uma segunda visita do mesmo Governador. Desta
vez com o fim explícito de instalar em data de 08 de Agosto a nova Vila do
Surubim.
Coube ainda ao Capitão Agostinho Ribeiro
Nunes de Brito que ainda era o juiz local, a missão de preparar a terra e seus
habitantes para o tão almejado evento. Como por ocasião da primeira visita, uma série
de correspondências, contendo recomendações, exigências e ameaças, foram
dirigidas às autoridades da freguesia, nova movimentação por toda parte. Novas
encomendas de selas, estribos, espagius e roupas, novas confecções em ouro e
prata, nova arrumação do povoado. Tudo agora com mais esmero e satisfação.
Fonte: MELO, Pe. Cláudio. Os Primórdios de Nossa História. 1983.