DESCRIÇÃO DA CAPITANIA DE SÃO JOSÉ DO PIAUHY — Por Antônio José de Morais Durão — 1772
Oeyras do Piauhí em 1758
A DESCRIÇÃO DA CAPITANIA DE SÃO JOSÉ DO PIAUÍ. Trata-se de uma memória manuscrita, datada de Oeiras aos 15 de junho de 1772, de autoria do Ouvidor da dita Capitania, Antônio José de Morais Durão. Tudo nos leva a crer tratar-se de um texto inédito, pois não o encontramos citado nem por Odilon Nunes, Pereira da Costa, Ferreira d'Alencastre, nem tampouco por J . Norberto de Sousa e Silva. A única referência à sua existência, salvo erro, foi feita por G. L. Santos Ferreira, que interessado em desvendar a questão dos limites do Piauí com os Estados limítrofes, esteve no começo do século atual em Portugal, consultou a referida DESCRIÇÃO mas contentou-se em transcrever no seu opúsculo apenas uma página que tratava da desembocadura do rio Parnaíba .
Sobre seu autor, Antônio José de Morais Durão, pouca coisa relatam os documentos. Sabemos que após a partida do Governador do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro para o Maranhão, a 1° de Janeiro de 1775, tomou posse do governo interino da Capitania, no dia seguinte, o Ouvidor Antônio José de Morais Durão, fazendo parte de uma junta composta pelo Tenente-Coronel João do Rego Castelo Branco, oficial militar da patente mais elevada e pelo vereador mais velho da Câmara do Senado de Oeiras, José Esteve Falcão.
Através da leitura desta sua DESCRIÇÃO podemos concluir que certamente o Dr. Morais Durão devia ser homem culto, pois tanto sua argumentação como seu vocabulário refletem razoável erudição. Homem de visão, não se contenta em "descrever" a capitania da qual foi Ouvidor: diagnostica, faz prognósticos, sugere remédios para os problemas que afetavam perniciosamente tal região.
Fonte: MOTT, Luiz. Introdução à Descrição da Capitania de São José do Piauí de 1772.
DESCRIÇÃO DA CAPITANIA DE SÃO JOSÉ DO PIAUÍ
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1772
Vermelho se chama na terra a todo índio de qualquer nação que seja; mamaluco ao filho de branco e índia; caful ao filho de preto e índia; mestiço ao que participa de branco, preto e índio; mulato ao filho de branco e preta; cabra ao filho de preto e mulata; curiboca ao filho de mestiço e índia; quando se não podem bem distinguir pelas suas muitas misturas se explicam pela palavra mestiço o que eu faço, compreendendo nela os cabras e curibocas.
Fazenda se chama a de gado vacum ou cavalar ditas vulgarmente currais; sítios se toma pela fazenda que se cultiva, sendo separada das de gado; pela qual razão não numerei as roças, engenhocas de açúcar, que se acham dentro daquelas porque seria isso multiplicar-lhe fantasticamente o número; as roças ou engenhocas distintas vão compreendidas debaixo da palavra sítio.
Tem esta Capitania 260 léguas de comprido desde a barra do rio Parnaíba até as vertentes de uma serra que fica 13 léguas adiante da vila do Parnagoá, correndo de leste-nordeste ao oeste-sudoeste, segundo informação dos mais práticos do país. Porém eu me capacito, não passa de comprimento de 200 léguas porque o tortuoso das estradas abertas ao acaso a representa de maior extensão. Da mesma forma lhe considero 80 léguas onde mais o é; suposto se entenda pelos mesmos práticos, passa muito de 800.
Assento que tanto a Carta Geográfica de Mons. Volim como a de Mons. Galúcio tem pouco de exatas, principalmente quanto à direção das ribeiras, não obstante ter o dito conferido a esta Capitania para a construção da sua.
Divide-se a mesma da do Maranhão pelo rio Parnaíba quase desde o seu nascimento até a sua barra; da do Ceará por umas matas que principiam junto à costa do mar, próximas à Vila da Parnaíba, em direitura à Serra da Beapaba que cinge quase esta Capitania ao nascente, continuando se vai dividindo pela Ribeira de Jaguaribe, Riachão e por outras matas, serras e travessias com declinação para o sul. Da de Pernambuco se separa por umas serrarias que continuam até o Rio Preto, onde confina com a da Jacobina, correndo de sul para sudoeste; da dos Goiazes pelas Terras Novas, inclinando-se para as cabeceiras da Parnaíba onde confina com o gentio bárbaro sem limite.
E o clima sadio, posto que calidíssimo; mas os muitos bosques, lagoas e outros lugares lodinosos produzem muita sezão e malignas nos fins das chuvas. Também se padece com freqüência a queixa da corrupção, a que chamam "bicho", causada do nímio calor de um país situado debaixo da zona tórrida. As mais enfermidades são menos freqüentes, mas incuráveis, porque em todo este sertão se não acha um médico nem cirurgião capaz. A hipocondria, o escorbuto, a asma fazem mais estragos do que se imagina, mas são desconhecidas.
É Capitania pobre, mas desempenhada. Pouco fértil, não tanto por influência da terra que pela maior parte é arenosa e la-geada, quanto pela nímia preguiça de seus habitadores que unica-mente se aproveitam do que a simples natureza produz, sem mais benefícios ou canseiras deles. Há muitas paragens excelentes para cultura, mas desprezadas, donde vem serem os frutos da terra, como são a mandioca, feijão, milho, arroz, açúcar em comparação com as demais capitanias, totalmente caríssimos.
Entre tantas ribeiras desta Capitania, apenas são perenosas a Gorguéa, o Paraim, a Parnaíba, além de alguns ribeiros de pouca consideração; os mais unicamente correm no tempo das chuvas a que no país se chama "verde". O Parnaíba é navegável mais de 100 léguas pela terra adentro, porém de canoas somente, porque as muitas cachoeiras que tem, impedem outra embarcação; ainda aquelas navegam com bastante trabalho e perigo pela causa disto.
CIDADE DE OEIRAS
Fica esta cidade no meio da Capitania; é situada numa baixa com inclinação para o poente e cercada de montes. Daquela parte a banha o Ribeiro da Mouxa que deu o nome à povoação enquanto vila; dele se bebe porque em toda a sua circunferência, não tem fonte alguma. Não tem relógio, Casas de Câmara, cadeia, açougue, ferreiro ou outra alguma oficina pública. Servem de Câmara umas casas térreas de barro e sobre que corre litígio. A cadeia é cousa indigníssima sendo necessário estarem os presos em troncos e ferros, para segurança. A casa do açougue é alugada, e demais coisa nenhuma. As casas da cidade todas são térreas até o próprio palácio do Governo. Tem uma rua inteira, outra de uma só face, e metade de outra. Tudo o mais são nomes supostos; o de cidade verdadeiramente só goza o nome. Tem a Câmara pouco mais de 200000 de renda e os cameristas nada de propinas; mas daqui nasce a repugnância com que servem, não obstante os prestígios de que ficam gozando e não obstante chamarem-se regularmente os próprios vaqueiros para servirem de juízes e vereadores.
Há nesta cidade e todo seu distrito uma só freguesia na invocação de Nossa Senhora da Vitória; mas é extensa demais e por esta causa, impossibilitada da administração dos sacramentos. Exceto na cidade, tudo o mais morre sem eles. Passam-se anos sem se batizarem os meninos e sem se satisfazer aos mais precei-tos eclesiásticos. Todo o que morre no campo se enterra junto das estradas e os sufrágios que se lhe fazem, são as orações de algum viandante pio.
Podia haver, a necessidade pede, haja mais freguesias no campo, principalmente onde se acham já eretas algumas capelas como é na Bocaina, junto à Ribeira do Itaim, no Ingá ou Fazenda do Brejo, Ribeira do Canindé, no Brejo do Piauí e na Nazaré, Fazenda dos Algodões da mesma ribeira.
Tem a cidade unicamente 157 fogos, porque suposto no mapa se vê 269, se deve entender porque se lhes juntam os da circunferência na distância de uma légua. Da mesma forma, tem somente 692 almas, as mais são na dita circunferência, e esta é a melhor demonstração de sua grandeza.
Cuidam muitos habitantes deste país em fugir da sociedade vivendo nos matos e brenhas, onde se figuram mais livres e donde vem a falta de instrução que padecem, e o respirar tudo a bárbaro e feroz. Verdade esta bem indicada pelos muitos e graves crimes que cometem principalmente de mortes e resistências. Nesta mesma cidade não há uma aula de gramática, só uma de escola é que fiz abrir quando aqui cheguei. A mocidade se perde sendo educada na mesma desilusão e ociosidade e mais vícios que os pais e parentes com publicidade praticam.
Há no distrito desta cidade duas povoações de índios: os Jaicós aldeados junco à Ribeira do Itaim e apenas chegarão hoje a 60 indivíduos, e os Gueguês que se situaram em São João de Sande distante da mesma cidade 8 léguas para a parte do norte e chegam, entre grandes e pequenos, a 252. Não os meti nos mapas porque não só não prometem aumento, mas nem ainda subsistem porque os Jaicós estão quase extintos e os Gueguês existirão pela metade do que eram quando se aldearam haverá 12 ou 13 anos. Vieram de novo 424 Acroás que se não acham ainda aldeados e as 3 juntas fazem o número de 736 almas. São uns e outros inseparáveis do furto e bebedeira e geralmente de qualquer nação que sejam, nimiamente estúpidos, preguiçosos, glutões e ligados aos seus ritos e superstições em um maior extremo, pegando-as como contágio aos mais moradores da Capitania. Já nela houve mais aldeias de que apenas há memória como direi falando dos Oroazes na Vila de Valença (mapa 5).
As principais ribeiras deste distrito são Piauí, Canindé, Riachão, Guaribas, Itaim, Talhada, Mouxa e outras mais pequenas que se metem nestas. A Mouxa e Talhada correm todo o ano; as mais quando chove somente. Quando o Canindé entra no Parnaíba as tem recebido todas. O Piauí fica ao sul da cidade, a Mouxa ao poente, as mais para o nascente e norte porém todas se metem no Canindé na forma dita.
VILA DO PARNAGOÁ
Fica a Vila do Parnagoá ao oeste-sudoeste desta cidade e dista dela pouco mais de 90 léguas. Tem junto a si um lago, com 5 léguas de circunferência. É abundante de peixe e não muito nocivo à saúde porque o atravessa o rio Paraim que todo ano corre.
Não tem oficinas públicas, como todas as mais vilas da Capitania, e o mesmo se deve entender pelas rendas das Câmaras, porque não tendo terras suas, contratos ou foros, nem verificado a graça que S. Majestade a todos fazia quando se criaram, de seis léguas de terra em peão a cada uma, é claro não poderem ter renda nem aumento.
Próximo a uma fazenda chamada do Mocambo, se acha um sítio chamado o Brejo, com 42 moradores, que fazem um povo mais numeroso, que a própria vila da qual dista 12 léguas ao mesmo rumo, mas nem nome tem de aldeia, nem juiz ou justiça, ao passo que se aumenta em cultura e negócio.
Quando desta cidade se caminha para a Vila do Parnagoá fica à esquerda entre as cabeceiras do Piauí e do Corimatá, mas já no distrito daquela Vila, um sítio chamado "As Pimenteiras", que terá, segundo notícia, 30 ou 40 léguas de extensão; no centro do mesmo, é constante se acham aldeados numerosos índios a quem se dá o mesmo nome do lugar. Muitos anos se conservaram pacíficos, sem sair fora, nem causar dano algum. Porém, de tempos a esta parte se tem averiguado prática já ao contrário, matando e fazendo estrago nas fazendas mais próximas.
Enquanto porém se buscam os de fora, indo conquistá-los por força, com excessivos trabalhos dos moradores da Capitania, fintas violentas de cavalos, dinheiro, bois e farinha, e grande despesa da Real Fazenda, que nenhuma utilidade recebem destas conquistas, mais que novo estrago das fazendas que lhe causam estes nocivos e inúteis habitantes, quando se metem de paz, obrigados da necessidade e que ainda vencidos, sempre vivem com violência, esperando ocasião oportuna para se levantarem como a experiência tem freqüentes vezes mostrado. Parece seria mais útil e menos custoso se domesticassem aqueles, convidando-se mais com suavidade e artifício, que com força, para se evitar a irreparável ruína que podem causar como situados quase no coração de uma Capitania, desacautelada e com pouca gente para um assalto repentino. Voltemos à vila.
Tem esta unicamente 29 fogos, os dois que se acrescem no mapa são nos arrebaldes. Fica em planície e goza melhores ares que esta cidade, pelo que se vive naquele distrito em melhor saúde, e se chega a mais avançada idade. Atualmente tem três homens, dos quais um tem 110 anos, outro 112, o terceiro, 120. O clima não é tão cálido.
As ribeiras do Corimatá, Paraim, a Gorguea com o nome de Gelboés que regam e fecundam bastantemente o distrito desta Vila, desaguam todas no Parnaíba, incluídos já no Gorguea, e isto junto à Vila. de Jeromenha. Gorguea e Gelboés é tudo o mesmo, porém enquanto esta ribeira corre pelo Distrito do Parnagoá, passa com o nome de Gelboés, tomado de um sítio que banha e é povoado de bastantes fazendas de gado vacum, entrando no da Jeromenha, deixado aquele nome toma o de Gorguea que conserva até se sepultar no Parnaíba.
A mesma Gorguea, Parnaíba, Urujuí e Rio das Lontras, nascem todos de uma mesma chapada que confronta quase com as Terras Novas, pertencentes a Goiazes, e suposto que com bastante distância um dos outros no seu nascimento. Vem todos com o seu cabedal aumentar o da Parnaíba, que da mesma forma recebe o de todos os mais rios ou ribeiras desta Capitania, como são, Piauí, Canindé, Poti, Sorobi, com os que nestes se metem e correm de nascente para poente com pouca variedade.
Algumas fazendas deste distrito têm salinas, mas o sal é nocivo à saúde. A invocação da Freguesia é de Nossa Sra. do Livramento.
VILA DE JEROMENHA
Está situada a Vila de Jeromenha quase ao poente desta cidade e dela dista pouco mais de 30 léguas. Quando se caminha para Parnagoá, fica à mão direita. Tem unicamente 5 fogos; os 18 que se lhe vêem são na circunferência. Não obstante ficar junto da Gorguea, e situada em lugar cômodo, nenhum aumento tem tido, como mostra o número de seus vizinhos, havendo 11 anos que é vila; o mesmo sucede às mais, e como a respeito desta, nada tenho que notar, apontarei aqui a principal causa daquele defeito.
Além dos senhorios das fazendas ou seus feitores, vaqueiros, fábricas e mais pessoas que nelas moram, como uma só família, há outras muitas a que chamam agregados, e são de duas formas: uns, que em algumas ocasiões servem como criador inerentes às famílias, outros que nem servem, nem na família se incluem, antes têm fogo separado, posto que dentro da mesma fazenda. Os primeiros, dado que maus, são toleráveis, mas os segundos, são péssimos e danosos em todo o sentido.
Disfarçam estes refinados vadios, preguiçosos, ladrões, matadores e pestes da república a sua péssima conduta com duas raízes de mandioca ou de tabaco que fabricam e que nunca chega para os sustentar e suas famílias mais que um ou dois meses no ano, mantendo-se o resto do mesmo, do que furtam e caloteara na mesma fazenda em que moram e nas circunvizinhanças, porque nenhum deles tem outro ofício nem qualquer que seus filhos aprendam.
Os donos das fazendas os toleram com semelhante vida e com prejuízo seu, parte por medo, pois se os encontram ou querem delas expulsar, só se expõem a um tiro, parte por dependência, porque se fazem mais respeitados com o seu auxílio; e quando se querem vingar de alguém têm prontos os seus agregados para toda a casta de despique. A justiça os não pode castigar, porque os não pode prender. A sua vida ou vivenda no mato, os prontos avisos que recebem de qualquer movimento e o pouco que têm que perder, lhes facilitam a fuga quando não têm forças para a resistência.
Os seus bens são a casa de palha, que se fabrica num dia, um cavalo, uma espada, uma faca e alguns cachorros que facilmente consigo mudam e com a mesma facilidade sustentam enquan-to lhes é preciso andar no mato. São estes demônios encarnados os curibocas, mestiços, cabras, cafus e mais catres de que a terra só é abundante, que acossados pelas justiças das outras capitanias em que delinquem e onde lhe não é fácil ocultar-se por povoadas e abertas, buscam esta como um infalível asilo das suas maldades e lugar próprio para continuarem nelas com todo o desafogo e sossego.
Enquanto porém se lhes permite esta depravada vida, com perda dos gados que furtam, com irreparável dano das gentes que matam, das mulheres que violentam, arrebatadas umas dos regaços de suas próprias mães e outras dos lados de seus maridos, sem lhes aproveitarem as lágrimas e humildes rogativas e enquanto finalmente vivem como brutos cometendo todo o fato horroroso em toda a espécie de delitos, desempenhando o nome de monstros e dando o mais escandaloso exemplo à sociedade. Estão as vilas ao desamparo, sem haver quem as povoem, sem artífices para as obras necessárias, sem homens para o trabalho, e sem aumento algum. Destas fogem eles com todo o desvelo, porque nelas se havia examinar o seu modo de viver e se poderiam capturar quando delinquissem com toda a facilidade, porém está tão arraigado o mal, que sem providência superior, nada tem remédio; muito mais por haver quem por depravação de espírito, siga a péssima máxima de que se não devem apertar por não desampararem a capitania, como se não fosse utilíssimo que a deixassem para cessar o mau exemplo que dão, em que se buscasse outro meio de evitar os freqüentes delitos que cometem, para suspender de qualquer sorte a torrente dos danos que causam.
Bom era de fabricar com eles, colônias que entrando nas terras dos gentios e estabelecendo-os nelas, servissem de barreira, cobrindo esta capitania, pois ao passo que se saneava fora esta pestífera raça, se evitavam os descontos, vexações e despesas que o povo faz na conquista daqueles e os graves prejuízos que causam, ainda depois de serem aqui metidos e aldeados.
A invocação da Freguesia é Sto. Antônio da Gorguea.
Até agora, falamos das duas vilas que ficam para o poente desta cidade, mas agora é preciso voltar o rosto para ver as quatro que nos ficam de nordeste até leste-nordeste da mesma, e ir caminhando até divisar a costa na Barra da Parnaíba, onde fihaliza esta Capitania.
VILA DE VALENÇA
A primeira que se encontra destas, é a de Valença, formada em um sítio que se chamava Catinguinha, para demonstrar pelo nome, a má qualidade do seu arvoredo. Dista desta cidade, 18 léguas e se encontra no pior sítio de todo o seu distrito, sem águas, sem pastos e sem outra alguma das comodidades necessárias para qualquer povo. Tem uma ermida de barro, mas arruinada com invocação de Nossa Senhora do O. Não tem câmara, cadeia, açougue, ou outra alguma oficina, e fica numa baixa terrível, onde se bebe de cacimbas.
Tem 9 vizinhos ainda que no mapa supra lhe damos 67, porque este número se prestam com todos os que moram até a dis-tância de uma légua a que cá estendem o nome de subúrbios. Deixou-se o Sítio dos Oroazes onde há a freguesia e donde há um templo de pedra que tem custado mais de 16 mil cruzados. Corre ao pé um ribeiro de boa água, tem pastagens, muita e boa pedra para toda a casta de edifícios, muita madeira, e o mais preciso para uma grande povoação.
Neste sítio, estiveram aldeados os índios Oroaze's, que deixa-ram o seu nome ao mesmo, porém hoje só permanece a sua memória. Fica o mesmo distante da Vila de Valença 8 léguas ao mesmo rumo. Também se deixa o Rodeadarco com iguais conveniências e além delas a da boa qualidade de sua terra para roças, por estar entre as Ribeiras de São Bito e Poti, com muita abhndância de águas. É rara a fazenda desta freguesia onde não haja roças, engenho, porque é uma das que tem melhores terras nesta capitania, porém eu nomearei-as separadas pela razão dita, de não causar confusão, multiplicando-as. Nas últimas fazendas desta freguesia, contando para Jaguaribe, Ribeira de Oxoré com casas ao nascente, chamada a Lagoa e das Almas, se encontram Catingas Gerais, nome que se dá ao mato continuado, inferior e sem águas, que elas tem rompido alguns sujeitos com bastante trabalho e afirmam que com 5 ou 6 dias de jornada porque corresponde a 20 léguas com pouca diferença, se chega a umas serrarias, donde se descobrem muito ao longe para diante, pelas dificuldades das serras e da secura, se precisaram a voltar sem mais circunstâncias de seu descoberto. Acrescentam que naquele centro se acham arranchados os Oroazes, que deixaram a sua aldeia segundo uma relação de dois índios antigos, e de um sacerdote que lá tinham chegado a entrar.
Muitos confirmam isto mesmo por outros fundamentos, assentando todos que os índios se tem aumentado naquele lugar grandemente e que a maior dificuldade deste descoberto consiste o de se não acertar com a entrada das serrarias, porém eu discordo que a frouxidão, o medo dos que lá tem ido figurando algum poder de Vermelhos insuperáveis é o maior obstáculo de sua entrada. Contudo, parece útil a indagação do que há naquelas cerros, ou para aumento da Capitania, sendo certo o que se conta, ou para sossego dos vadios e curiosos, verificando serem palácios encantados, como suspeito.
A invocação da Freguesia é de Nossa Senhora da Conceição dos Oroazes.
VILA DE MARVÃO
Para diante de Valença e em direitura à Vila de São João da Parnaíba, ficam as duas vilas de Campo Maior e Marvão, no meio da distância que vai desta cidade àquela Vila da Parnaíba. Uma em par da outra na distância de 18 léguas, com pouca diferença, porque dizem que desta cidade a qualquer daquelas vilas são 60 léguas, e outras 60 de qualquer delas à de São João. Eu ainda que convenha na igual distância porque já tenho andado por estas vilas, não a sinto no número das léguas e unicamente conta 100 desta cidade a dita vila, mas concedo ficarem as duas de que vou tratar no meio do caminho.
Esta de Marvão é a pior de toda a Capitania, porque se acha no sítio mais seco e fúnebre da mesma. Tem únicas três casas ou moradores, para melhor dizer, pois ainda que aquelas são mais, não tem inquilino algum. O vigário, o juiz, o escrivão e o pior é que nem esperança deixa destes aumentos por lhe faltarem todos os princípios condizentes para os mesmos.
Tem pouca gente porque apenas tem uma ribeira mais considerável no seu distrito, que é a do Carateus, que vem desaguar na do Poti. Confina com a Serra da Beapaba, onde os limites desta Capitania com a do Ceará não tem certeza, donde vem ser o principal covil de quantos criminosos há, tanto de uma como de outra capitania, mudando eles as extremas ou confundindo-as e variando-as como lhes faz conta, para não serem inquietados de nenhuma das partes.
As longitudes entremeadas de bosques, áspero dos caminhos o inacessiável das serras, concorrem todos para o seu intento. Esta entrada de Carateus é a mais segura para todos os criminosos do Caraí e de todo o Ceará e a saída mais certa dos que nesta capitania delinquem e é certo que só sendo as jurisdições dos ministros cumulativas para os casos capitais ou fazendo-se praticar a determinação dos passaportes de comarca para comarca, se poderia fechar de alguma forma a mesma.
Tem uma só freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, porém nada de câmara, cadeia, como o mais. Antes de vila se cha-mava sítio e Rancho do Mato, nome de uma fazenda em que se acha fundada. Dizem com muita certeza que tem ouro nos seus riachos, mas que não é de conta, suposto se achasse já folheta de meia libra.
Confina esta vila com a de Valença, com a de Campo Maior e com a de São João da Parnaíba, na Capitania; pelo nascente com a do Ceará. Nada mais me ocorre que notar a seu respeito. Por equivocação digo acima ser a invocação de Nossa Senhora do Nazareth, porque é de Nossa Senhora do Desterro.
VILA DE CAMPO MAIOR
Ao lado da Vila de Marvão, ou ao norte da mesma, se encontra a Vila de Campo Maior, numa espaçosa e alegre campina, com 79 fogos e semelhanças de povoação do Reino desafrontada de matos; é mais capaz de ser cidade que esta de Oeiras, que fica numa cafurna.
Tem muito povo, muita fazenda e bons sítios; confina com o Rio Parnaíba da parte do norte, com a vila de Marvão quase ao sul, com a de Valença e de São João da Parnaíba.
Fica coisa de 50 léguas de terra distante desta cidade, e é regada de algumas ribeiras, como são o Parnaíba, Poti, que lhe servem de extremos; o primeiro com a Capitania do Maranhão, ao segundo com uma ponta da freguesia desta cidade e Vila de Valença; o Longá, Sorobi, copioso de peixe, e outros muitos, mas mais inferiores. Contudo não tem câmara, cadeia e açougue, nem outra alguma oficina pública, como já disse falando das mais vilas. As suas ribeiras do Longá e do Poti, semelhantes à de Carateus, têm sido o escândalo de toda a Capitania, pois inumeráveis mortes que nelas se tem feito e fazem, posto que com menos freqüência, fiados na vizinhança da Beapaba e confusão dos extremos, como acima se disse.
Na barra que o Poti faz no Parnaíba, tem bastante número de vizinhos ou fogos. O sítio é comunicável pela junção daquelas ribeiras de boa produção pela qualidade das terras e com capacidade para se formar um grande povo. No Celongue, outro sítio, assim chamado pelo nome de uma fazenda, também tem mais de 20 fogos juntos. Nas barras tem uma igreja de campo muito suficiente e para a parte do Poti, se trabalha noutra de invocação de Nossa Senhora dos Humildes.
A freguesia da vila e de todo o distrito é da invocação de Santo Antônio do Sorobi, por diferença do da Gorguea, ,porém ainda hoje a todo aquele território se chama o Longá.
Deriva-se aquele nome de uma nação de vermelhos assim chamados, que habitavam naquela ribeira e suas vizinhanças, enquanto não foram expulsos pelos reinóis, que entraram a descobrir e povoar aquela paragem. Assim também o de Carateus, no Distrito de Marvão, que tomou o mesmo nome de outra Nação assim chamada, por possuirem a dita ribeira, e que se estendiam pela do Poti até a do Parnaíba, ocupando uma grande porção de terras. Paracatis se nomeavam a Ribeira do Piauí no distrito desta cidade, porém de todas estas Nações, e outras muitas que pelas mais ribeiras habitavam não existe hoje mais que o nome.
VILA DA PARNAÍBA
O Rio Parnaíba depois de regar estes sertões por espaço de muito mais de 200 léguas, aumentado e caudaloso com todas as ribeiras desta capitania e algumas da do Maranhão, que correm por Pastos Bons, freguesia fronteira à Vila de Jeromenha, se sepulta no oceano, entre as Capitanias do Ceará e do Maranhão numa ponta de terra que pertence a esta do Piauí, e que chega a costa do mesmo mar, com a largura unicamente de quatro ou cinco léguas.
Faz dois braços na barra com bem diferentes nomes: o da parte do Poente conserva o de Parnaíba, mas o do Nascente, toma o de Iguarani, e a ilha que forma entre um e outro se chama de Santa Isabel. No braço do Iguarani e na margem oriental dele, fica situada a Vila de São João distante quatro léguas da Costa do Mar.
Tem uma só freguesia da invocação de Nossa Senhora do Carmo da Piracuruca, mas fica 30 léguas distante da mesma, para a parte de Campo Maior. O templo é de pedra de cantaria assaz magnífico o que fez de despesa quase 200 mil cruzados, porém está sem uso e descoberto.
Tem-se aumentado esta Vila pelo negócio que nela se estabeleceu das carnes secas e couramas, que levam as sumacas ou barcos da Bahia, Pernambuco e outros portos, trazendo dos mesmos alguma fazenda, que davam em parte do pagamento, porque a sua barra e a sua costa, em razão dos muitos baixios que tem, não permitiam lhe chegasse embarcação de maior lote.
A Câmara tem sua renda nestas entradas, porque lhe pagava de gabela cada uma daquelas embarcações 14$000, sempre que vinham ao porto. Agora porém tem diminuído uma e outra cousa por causa da feitoria que na mesma Vila se pôs pela Companhia do Maranhão, o ano próximo passado.
O braço do rio que conserva o nome de Parnaíba serve de limite à Capitania do Maranhão e a do Ceará; principia afastado da Vila cousa de duas ou três léguas somente.
Como o principal negócio que nela se faz consiste nos gados que se matam nas feitorias e estas ficam arrimadas à Vila, é natural padeçam as epidemias que quase todos os anos experimenta, porque o fétido que causa o sangue espalhado e mais miúdos de tantos milhares de reses que se matam no pequeno espaço de um até dois meses, corrompe o ar com muita facilidade e produz o dano apontado. As moscas e outras savandijas são tão inumeráveis que causam inexplicáveis moléstias aos habitantes, e isto mesmo há de suportar precisamente toda a pessoa que vai de fora porque só no tempo de verão se pode caminhar por aquele dis-trito, pois de inverno por ser baixo, e alagadiço, se cobre de lagoas e faz absolutamente impraticáveis os caminhos de sorte que o povo se tem visto na consternação de padecer algumas fomes por aquela causa, no referido tempo e assim é o da matança da referida vila.
Os primeiros descobridores deste sertão foram Francisco Dias de Ávila, Antônio Guedes de Brito, Bernardo Vieira Tavares, Domingos Afonso Certão, e outros, aos quais concedeu S. Majestade todas terras que possuíssem. E suposto expulsassem os índios das Ribeiras do Piauí e Canindé, foram as primeiras que se descobriram, tornaram os mesmos a recuperá-las com bastantes estragos para ocuparem. Outros reinóis mais ajudaram os primeiros, e pouco a pouco se foram entrando, indo pelas mesmas e outras ribeiras, lançando fora de todas os ditos índios, estabeleceram-se ocupando cada, e povoando o que poude, mas daqui se seguiram ao depois pleitos com os dactários que ainda agora se acham indecisos.
No ano de 1696 erigiram a freguesia, escolhendo para ela o Brejo da Mouxa, como centro do sertão descoberto; em fevereiro de 1697, pactearam por ( ) o primeiro pároco fizesse a desobriga das freguesias pelas ribeiras, pediram depois disso, por já muito o povo, um juiz de fora que administrasse justiça; e El Rei D. João V que Santa Glória haja, depois de criar a povoação em vila, com o mesmo nome de Mouxa, por carta de 30 de junho de 1712, lhe concedeu Ouvidor Letrado em 1718, suposto que só veio a tomar posse o primeiro em 1724. Ao mesmo tempo se foram erigindo freguesias pelo campo porque se aumentavam os moradores, descobriram e povoavam mais ribeiras até que no ano de 1761, por Carta Régia de 19 de junho do dito ano, foi a Vila criada Cidade, com o nome de Oeiras, e as freguesias de Campo, Valença, por mercê do Augustíssimo P. D. José I que atual e felizmente reina passando para esse fim a esta Capitania o Exmo. João Pereira Caldas, que foi o primeiro Governador dela, com a patente de Coronel da Cavalaria, nela deixou perpétuas memórias da sua prudência, candidez, desinteresse e outras virtudes que o adornam como também os desembargadores Francisco Marcelino de Gouveia, com assento no Conselho Ultramarino, e Luiz José Duarte Freire, servindo de Ouvidor com assento na Relação da Bahia, Ministros de grande circunspecção, literatura e bondade.
Até aquele tempo, se sustentava 'o representante dos Exmos. Governadores do Maranhão e das Justiças da Comarca, por uma Companhia de intendentes, que do regimento daquela cidade de tempos em tempos se destacava para esta Capitania e ficava às ordens do Ouvidor da mesma. Hoje criou S. Majestade uma de dragões com os seus cabos competentes e dois regimentos de auxiliares de pé e cavalo, mas a exorbitância dos soldos daquela, fardamentos, munições, hospitais e mais despesas faz excedam estas muito a produção dos dízimos; único rendimento da Real Fazenda neste sertão, suprindo até agora as dívidas antigas que se tem cobrado e que findas dentro de dois ou três anos se há de verificar a certeza do que levo dito.
Enquanto os primeiros descobridores davam ao longe, uma grande idéia destes sertões, movidos dela se abalavam muitos a seguir-lhes o exemplo, para lhes ser companheiros nos interesses que se prometiam, se evacuavam todas as capitanias vizinhas dos maus humores que as alteravam, porque os criminosos, os insolentes e os falidos buscavam de tropel estas ribeiras e suas brenhas, não tanto para seu aumento quanto para nelas ocultarem com segurança as suas maldades e desregramentos, firmes estabelecidos com a mudança de nome e de território, nenhuma faziam na vida, antes continuavam naquelas com tanto maior desafogo quanto viam mais impossível a punição das mesmas. Ainda hoje dura esta máxima, porque ainda hoje é receptáculo de tudo o que é mau.
Ao mesmo tempo se iam domesticando, já por força, ou já por arte, muitos índios que faziam uma vida muito livre e muito brutal, por todo o gênero de vícios lapidam segundo os seus antigos vícios e costumes que nunca largavam.
Vinham os pretos parte em cativeiro, parte fugitivos das mais comarcas, e todos se viram a misturar e confundir, formando um só povo de nações tão diversas em que sempre se respira serem os mesmos vícios de cada uma, delas realçada. E como ao mesmo tempo são raríssimos os reinóis que do Reino viessem dirigidos para estes sertões, e ainda assim mesmo tomavam com facilidade os vícios da terra a que não podiam resistir, arrebatados, como se uma torrente que os submergia. É bem perecível o caráter destes povos.
O perjúrio, os homicídios, a infidelidade, a vingança, a traição e a imodéstia são as paixões dominantes do país, ou de seus moradores. Desde meninos se habituam a matar e a ver matar com freqüência toda casta de animais, perdem insensivelmente a compaixão e praticam ao depois sem dificuldade, com os indivíduos da sua mesma espécie, o mesmo que sempre costumaram com os das mais. Faltos de religião e doutrina, desconhecem a gravidade do perjúrio e da traição. Indóceis por natureza e falta de instrução, se arrojam a cometer todo o delito, sendo já hoje não menos freqüente o do furto; praticado pelos artificiosos modos com que as negociações se fazem. A todos os vícios excede e deles é também causa, a inaudita e indizível preguiça, que os ocupa.
As negociações, manufaturas, tráficos e mais modos de florescer qualquer estado, se reduzem aqui a desprezar tudo o que é ofício e trabalho, vivendo unicamente dos gados e cavalos, que os campos criam, dos frutos que o mato produz e de um pouco de mandioca que amestradamente plantam. Lançam boiadas e cavalarias para as Comarcas vizinhas como sempre fizeram, porém já com grande diminuição dos preços, porque nas mesmas se tem feito semelhantes fazendas e reduzido aquele negócio por esta causa à maior decadência. Estudos de qualidade nenhuma se tem aqui, nem exercício louvável.
O medo de os fazer soldados e mais que tudo o trabalho das bandeiras que entram à conquista do gentio bárbaro tem feito desamparar muitas famílias neste sertão. É verdade que a entrada que se faz para domar o Gueguê que como índio de corso infestava de contínuo e com gravíssima perda as fronteiras desta Capi-tania, foi necessário e útil mas as mais são destituídas daqueles requisitos, ou pelo menos se podiam evitar por outros meios mais seguros, e de inegável utilidade ao comum.
Oeiras do Piauí, 15 de Junho de 1772.
O Ouvidor da Capitania Antônio José de Morais Durão.


